quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Até que as cores a separem!


Assim a primeira vista não há quem olhe e perceba diferenças, é tudo coincidência, plano divino, sei lá, mas é muito igual pra ser acaso: duas casinhas que nasceram pra ser vizinhas, fato consumado. Percebe-se. Elas tem a mesma altura, os telhados até se encontram em uma linha perfeita, sem contar que o amarelo que falta em uma, sobra na outra, elas nasceram pra ser assim conjugadas! As janelas são verdes, as janelas de ambas são! isso impressiona. Ambas tem um mesmo estilo, provavelmente planejadas pelo mesmo arquiteto, na mesma época, são semelhanças demais para serem ignoradas. Elas precisam estar juntas, é claro! Elas não teriam essa beleza tão completa, separadas! As pequenas diferenças nem davam pra ser notadas, a não ser que uma era amarela e a outra vermelha, claro. Mas aí se você analisar muito, coisa que só é possível com o tempo, você começa a achar que uma é vermelha demais, a outra também é amarelo forte, dois extremos que se chocam, tão perto assim. Tipo um precipício onde quem tá em cima fica tonto se olhar demais pra quem tá em baixo. É possível perceber que a necessidade de ar que uma tem é totalmente oposta a outra, a vermelha tem as janelas entreabertas, talvez seja pra não ofender a amarela tão fechadinha, talvez ela quisesse abrir mais e fazer o ar circular. Você nota também que a casa vermelha tem uma janela a mais e essa janela antes despercebida, começa a fazer toda a diferença, afinal janela que é janela precisa estar aberta pro mundo e deixar que ele entre. E com todas essas contrariedades, pequenas aos olhos de quem vê, dá uma vontade desesperada de pintar as duas de uma cor só, quem sabe misturar as duas cores e deixar o meio termo o laranja, mas o laranja não agrada a nenhuma das duas, aí vai crescendo, vai aumentado, vai, VAI...! Aí quando vê foi. Que pena, elas são lindas e perfeitas, cada uma a seu modo, talvez a culpa seja das cores primárias, que são primárias demais para funcionarem agora... De qualquer forma eu ainda acredito nas casinhas, .

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Pra aliviar um coração


O amor não tem pernas, não tem cheiro, não tem jeito, não pode ser personificado. O amor não é externo, ele começa em mim e termina.. não, ele não tem fim. Ele as vezes quer desaguar em alguém, em alguma coisa, isso parece tão egoísta, tanto amor assim, ser limitado, dedicado, restrito. Tanto amor assim, em mim, de mim para qualquer coisa que não seja eu, isso não é feliz. E esse amor assim tão virgulado, com tanto cuidado, querendo ser cuidado, querendo ser unido, querendo ser somado, querendo ser vivido. Enquanto isso vai vivendo e vai matando, vai sendo respirado e vai sufocando, guardando, guardando. Vai estonteando, vai inutilizando, vai transbordando e afogando, ele vai afogando. Ele que precisa toda hora se instalar, tomar conta de tudo, ele que precisa gritar, dar a volta ao mundo, ser estridente. Quanto amor, pra tão pouco coração, pra tão pouca gente, quanto tanto, quanto exagero, quanto perdição, quanto freio, tanta contenção. Em vão...

Sinal dos tempos


É preciso fazer uma canção
um trato, uma entrega, uma doação
é preciso a chuva escura, a noite
a solidão.

É preciso tudo agora,
um dissabor uma vitória uma confissão
a voz de um instrumento e a tua mão
que nos faça acordar...
Sim, meias palavras não bastam
é preciso acordar!

É preciso mergulhar mais que mil pés
onde Netuno traça o rumo das marés
é preciso acertar a direção dos pés
quando os velhos caminhos se esgotam
os tempos não voltam
não voltam...

É preciso alcançar outra estação
mesmo com sono, mesmo cansado
solto como um cão
é preciso o sol e a rua a tarde
a multidão.

É preciso Atravessar lá fora
um corredor, um rio da história, uma revolução
o caos de uma palavra nova, um sim e um não
que nos faça acordar...
Sim, meias palavras não bastam
É preciso acordar!
(Antonio Villeroy)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Janela de minh´alma


Eu tenho uma janela e dela eu não vejo nada lá fora e tudo por dentro. De dia eu olhava pra ela logo cedinho, dois ou três passarinhos bicavam o vidro, como se quisessem me avisar que o dia estava tão bonito. Eu via também meu avô passando no bequinho e ele tinha uma malinha cheia de ouro, e eu via ele banhar anel por anel e talhar pedrinhas coloridas, depois fazia um cigarro de fumo, me dava 5 reais e eu me sentia a mais rica do mundo. E lá tinha um cofre, verde e bem secreto, até hoje não sei se ele guardava algo, eu ficava imaginando quanto tinha a mais que o meu porquinho, se tinha mais de 5 reais, se tinha moedas de ouro... E tinha atrás do bequinho, uma caixa d´água tão alta, que eu precisava subir na outra caixa d´água, e eu sempre torcia pra tampa ceder e eu cair e nadar junto com os peixinhos (segundo minha vó lá tinha muitos). E de tão alta a caixa, quando eu subia me sentia no meu país.

E da janela eu ouvia o barulho do carro de som da igreja, e me dava uma tensão, podia ser algum evento da paróquia, ou a morte de alguém...Eu nunca vou esquecer do dia que ele gritou a minha dor pra cidade toda ouvir. A sala tinha cadeiras vermelhas e tinha uma radiola que tocava Roberto Carlos cantando músicas felizes, mas hoje são todas tristes. E o jardim? a coisa mais linda do mundo, cheio de rosas e caramujos, tinha tarde que eu catava a maioria deles. Tinha a minha rede, tinha "o meu programa", tinha sapoti, tinha uva preta, tinha minha vó-vida, tinha 30 coleguinhas e tinha toda a minha vontade de ficar ali por mais de 2 meses. Olhar por essa janela, é me olhar por dentro e as vezes a gente esquece quem é lá no fundo, sorte que eu tenho uma janela pra me lembrar disso.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A bailarina gorda


Como toda bailarina ela sonhava com mil saltos mortais
Os dedos do destino a desenharam gorda demais
Cada volta ou pirueta era um desastre, eram risadas gerais
E os olhos do menino que ela amava a amavam magra demais.

Cada bola de sorvete é tanta culpa, era remorso demais
E o mais lindo vestido tá guardado: gorda demais!
Cada abraço, um arrepio, ai, por um fio ele me apalpa por trás
E sente a carne mole, frouxa, coxa, gorda demais
Como toda bailarina ela sonhava com mil saltos mortais.


(Oswaldo Montenegro)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O público segredo da felicidade


É quase sempre assim, a felicidade é confundida com a liberdade, como se todo mundo tivesse consciência de si mesmo, como se todo mundo fosse capaz de escolher o caminho mais limpo, como se toda escolha viesse com certificado de garantia, como se ser livre fosse a resolução de todos os embates da vida. A maioria dos resultados pra "imagens de felicidade" no google, mostram alguém vestido com roupas simples, com os pés fora do chão, braços abertos, em paisagens naturais, na maioria das vezes sozinho, como se o atual conceito de felicidade fosse simplicidade, natureza e solidão. Eu acho engraçado.


Mais engraçado ainda é que todo mundo que se diz feliz, faz questão de gritar bem alto, de forma até arrogante e prepotente. Em quantos lugares aqui na internet já não li a seguinte frase: "Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito". Isso me parece mais auto-promoção, do que realmente felicidade extravasada. Até porque na maioria das vezes, essas frases de marketing pessoal, são mais pra exibição, pra atingir outras pessoas (o mais interessante é que funciona, o egoísmo humano se incomoda com a felicidade alheia).


Voltando a célebre frase de Clarice Lispector, que é cuspida por tantas bocas por aí, eu particularmente não concordo nem um tantinho com essa afirmativa e olhe que sinto na pele tantas coisas que Clarice fala, sou até meio tiete, mas com isso eu não concordo. Essa propagação exagerada de felicidade, parece até meio triste, porque alguém que realmente esteja tendo seu tempo consumido por ela, não tem tempo de publicar isso em todos os cantos do mundo. E também, imagina só como deve ser triste alguém que não tem tempo pra ser triste, como faz quando tem vontade de chorar? se contem? pessoas contidas não são felizes completamente, ou essas pessoas estão tentando dizer que nunca sentem vontade de chorar? Todo mundo sente. Uns pouquinho, outros...


Que tipo de felicidade seria essa, que ocupa alguém exclusivamente consigo mesmo? a felicidade deve ser muito egoísta mesmo, pra não deixar tempo pra que o feliz divida isso com os outros. A pergunta melhor seria: que tipo de pessoa é essa, que se sente suficiente no mundo e não se disponibiliza pra contribuir com as necessidades dos não tão felizes assim? como se a gente viesse pra cá pra terra, só pra ser feliz, pronto. Se fosse assim, não viveriamos em sociedade, seríamos todos "pequenos príncipes" cada qual em seu planeta. Pra mim, essa felicidade é triste.


São felicidades pequenininhas que potencializam uma maior, pra mim é: receber um torpedo do bébs no meio da aula, pegar Rio Doce cdu e ter cadeira vaga, achar um real no bolso quando paro bem na frente da barraquinha, ter chiclete de melancia na bolsa, a bateria do MP3 durar o dia todo, Thalia esquentar meu jantar, ... Esse tipo de coisa é bem subjetiva, não tem significado pra mais ninguém nesse mundo. Cada um tem seu tantinho de felicidade diária. Já a felicidade maior, essa precisa primordialmente de gente. E acho que aqui nesse mundo ela nem é possível, basta você prestar atenção ao que tá acontecendo lá fora, que fica claro o porquê disso. Só é possível experimentar da felicidade entrando em contato, a sensação não é a daquela felicidade televisiva e convencional, o sentimento é bem maior.


E já que meu poder de síntese é zero(percebe-se pela extensão do texto) vou deixar que Tom Jobim resuma isso numa frase bem simples: é impossível ser feliz sozinho.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Um parzinho de oportunidades

Eu e as sapatilhas vermelhas, nunca nos entendemos muito bem. Quando eu as experimentei pela primeira vez, foi paixão, certeza e disso eu sei porque o sentimento era vermelho como elas e modesta parte de cores e de sentimentos eu entendo muito bem. Foi tão intenso que eu mau experimentei e não dei a menor importância pro plástico duro, que esquenta, faz calo e dá chulé, tudo isso porque ela brilhava demais aos meus olhos.

Esse sentimento todo não durou nem 2 horas de uso, era insuportável, feria meu pé e a vontade que eu tinha era de jogar elas pela janela. Mas eu fiz melhor que isso, fui troca-las, podia ser culpa do plástico, do tamanho, da cor, sei lá...havia de ter uma solução! Não teve mais volta, eu já tinha usado, as sapatilhas já eram minhas, não dava pra repassar assim, pra outro pé, elas já me pertenciam. Eu tinha 2 opções, ama-las ou queima-las, mas que aperto que dava no coração, imaginar elas derretendo seu plástico tão brilhante e tão sorrindo pra mim e tão dizendo: me calça, me calça! Tão reluzente e mágica por fora e tão desconfortável e fedorenta por dentro, como tantas outras coisas que eu já tinha visto na vida. Todas essas coisas são testes e eu não ia ser vencida por uma sapatilha...ou por um par delas...Eu já tinha ouvido falar que com o passar do tempo, ela se adaptaria ao meu pé, aí ela era tão linda e parecia valer tão a pena que eu resolvi tentar.

Foram pequenos apertos diários, alguns calos e outras cositas mais, até que meus pés se acostumaram...Pra poder desfrutar do melhor dela, eu tive que aprender a conviver com os danos, com a desagradável sensação de que ela não me servia, o engraçado é que o número era exatamente 37 e cada um deve calçar o número que lhe cabe. Talvez meus sapatinhos vermelhos, rentes ao chão, fossem exatamente o que eu precisava no momento, combinavam com a maioria das minhas roupas, com todas as ocasiões e eu não ia ignora-los porque me feriram algumas vezes. Quantas coisas já não me feriram algumas vezes? Eu me arrependo de não ter insistido em todas, como um par de sapatilhas, afinal, quem sou eu pra não poder ter um calinho e sara tão rápido, que nem vale a pena descartar. Nem sapatilha, nem gente é descartável. (só alguns copinhos)

Agora, pra não deixar a impressão de que as sapatilhas vermelhas só me fizeram mal e que eu sou a pessoa mais boazinha do mundo por aguenta-las por tanto tempo, eu quero salientar em letras maiúsculas que ostentam mais e como toda coisa maiúscula chama mais atenção: HOJE EM DIA ELAS CALÇAM LINDO. E o bom que como tenho os pés feios, eles passam despercebidos, bem cobertinhos e vermelhos. Por isso por experiência própria eu digo: sapatilha apertada é só uma questão de tempo!