segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sinal dos tempos


É preciso fazer uma canção
um trato, uma entrega, uma doação
é preciso a chuva escura, a noite
a solidão.

É preciso tudo agora,
um dissabor uma vitória uma confissão
a voz de um instrumento e a tua mão
que nos faça acordar...
Sim, meias palavras não bastam
é preciso acordar!

É preciso mergulhar mais que mil pés
onde Netuno traça o rumo das marés
é preciso acertar a direção dos pés
quando os velhos caminhos se esgotam
os tempos não voltam
não voltam...

É preciso alcançar outra estação
mesmo com sono, mesmo cansado
solto como um cão
é preciso o sol e a rua a tarde
a multidão.

É preciso Atravessar lá fora
um corredor, um rio da história, uma revolução
o caos de uma palavra nova, um sim e um não
que nos faça acordar...
Sim, meias palavras não bastam
É preciso acordar!
(Antonio Villeroy)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Janela de minh´alma


Eu tenho uma janela e dela eu não vejo nada lá fora e tudo por dentro. De dia eu olhava pra ela logo cedinho, dois ou três passarinhos bicavam o vidro, como se quisessem me avisar que o dia estava tão bonito. Eu via também meu avô passando no bequinho e ele tinha uma malinha cheia de ouro, e eu via ele banhar anel por anel e talhar pedrinhas coloridas, depois fazia um cigarro de fumo, me dava 5 reais e eu me sentia a mais rica do mundo. E lá tinha um cofre, verde e bem secreto, até hoje não sei se ele guardava algo, eu ficava imaginando quanto tinha a mais que o meu porquinho, se tinha mais de 5 reais, se tinha moedas de ouro... E tinha atrás do bequinho, uma caixa d´água tão alta, que eu precisava subir na outra caixa d´água, e eu sempre torcia pra tampa ceder e eu cair e nadar junto com os peixinhos (segundo minha vó lá tinha muitos). E de tão alta a caixa, quando eu subia me sentia no meu país.

E da janela eu ouvia o barulho do carro de som da igreja, e me dava uma tensão, podia ser algum evento da paróquia, ou a morte de alguém...Eu nunca vou esquecer do dia que ele gritou a minha dor pra cidade toda ouvir. A sala tinha cadeiras vermelhas e tinha uma radiola que tocava Roberto Carlos cantando músicas felizes, mas hoje são todas tristes. E o jardim? a coisa mais linda do mundo, cheio de rosas e caramujos, tinha tarde que eu catava a maioria deles. Tinha a minha rede, tinha "o meu programa", tinha sapoti, tinha uva preta, tinha minha vó-vida, tinha 30 coleguinhas e tinha toda a minha vontade de ficar ali por mais de 2 meses. Olhar por essa janela, é me olhar por dentro e as vezes a gente esquece quem é lá no fundo, sorte que eu tenho uma janela pra me lembrar disso.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A bailarina gorda


Como toda bailarina ela sonhava com mil saltos mortais
Os dedos do destino a desenharam gorda demais
Cada volta ou pirueta era um desastre, eram risadas gerais
E os olhos do menino que ela amava a amavam magra demais.

Cada bola de sorvete é tanta culpa, era remorso demais
E o mais lindo vestido tá guardado: gorda demais!
Cada abraço, um arrepio, ai, por um fio ele me apalpa por trás
E sente a carne mole, frouxa, coxa, gorda demais
Como toda bailarina ela sonhava com mil saltos mortais.


(Oswaldo Montenegro)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O público segredo da felicidade


É quase sempre assim, a felicidade é confundida com a liberdade, como se todo mundo tivesse consciência de si mesmo, como se todo mundo fosse capaz de escolher o caminho mais limpo, como se toda escolha viesse com certificado de garantia, como se ser livre fosse a resolução de todos os embates da vida. A maioria dos resultados pra "imagens de felicidade" no google, mostram alguém vestido com roupas simples, com os pés fora do chão, braços abertos, em paisagens naturais, na maioria das vezes sozinho, como se o atual conceito de felicidade fosse simplicidade, natureza e solidão. Eu acho engraçado.


Mais engraçado ainda é que todo mundo que se diz feliz, faz questão de gritar bem alto, de forma até arrogante e prepotente. Em quantos lugares aqui na internet já não li a seguinte frase: "Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito". Isso me parece mais auto-promoção, do que realmente felicidade extravasada. Até porque na maioria das vezes, essas frases de marketing pessoal, são mais pra exibição, pra atingir outras pessoas (o mais interessante é que funciona, o egoísmo humano se incomoda com a felicidade alheia).


Voltando a célebre frase de Clarice Lispector, que é cuspida por tantas bocas por aí, eu particularmente não concordo nem um tantinho com essa afirmativa e olhe que sinto na pele tantas coisas que Clarice fala, sou até meio tiete, mas com isso eu não concordo. Essa propagação exagerada de felicidade, parece até meio triste, porque alguém que realmente esteja tendo seu tempo consumido por ela, não tem tempo de publicar isso em todos os cantos do mundo. E também, imagina só como deve ser triste alguém que não tem tempo pra ser triste, como faz quando tem vontade de chorar? se contem? pessoas contidas não são felizes completamente, ou essas pessoas estão tentando dizer que nunca sentem vontade de chorar? Todo mundo sente. Uns pouquinho, outros...


Que tipo de felicidade seria essa, que ocupa alguém exclusivamente consigo mesmo? a felicidade deve ser muito egoísta mesmo, pra não deixar tempo pra que o feliz divida isso com os outros. A pergunta melhor seria: que tipo de pessoa é essa, que se sente suficiente no mundo e não se disponibiliza pra contribuir com as necessidades dos não tão felizes assim? como se a gente viesse pra cá pra terra, só pra ser feliz, pronto. Se fosse assim, não viveriamos em sociedade, seríamos todos "pequenos príncipes" cada qual em seu planeta. Pra mim, essa felicidade é triste.


São felicidades pequenininhas que potencializam uma maior, pra mim é: receber um torpedo do bébs no meio da aula, pegar Rio Doce cdu e ter cadeira vaga, achar um real no bolso quando paro bem na frente da barraquinha, ter chiclete de melancia na bolsa, a bateria do MP3 durar o dia todo, Thalia esquentar meu jantar, ... Esse tipo de coisa é bem subjetiva, não tem significado pra mais ninguém nesse mundo. Cada um tem seu tantinho de felicidade diária. Já a felicidade maior, essa precisa primordialmente de gente. E acho que aqui nesse mundo ela nem é possível, basta você prestar atenção ao que tá acontecendo lá fora, que fica claro o porquê disso. Só é possível experimentar da felicidade entrando em contato, a sensação não é a daquela felicidade televisiva e convencional, o sentimento é bem maior.


E já que meu poder de síntese é zero(percebe-se pela extensão do texto) vou deixar que Tom Jobim resuma isso numa frase bem simples: é impossível ser feliz sozinho.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Um parzinho de oportunidades

Eu e as sapatilhas vermelhas, nunca nos entendemos muito bem. Quando eu as experimentei pela primeira vez, foi paixão, certeza e disso eu sei porque o sentimento era vermelho como elas e modesta parte de cores e de sentimentos eu entendo muito bem. Foi tão intenso que eu mau experimentei e não dei a menor importância pro plástico duro, que esquenta, faz calo e dá chulé, tudo isso porque ela brilhava demais aos meus olhos.

Esse sentimento todo não durou nem 2 horas de uso, era insuportável, feria meu pé e a vontade que eu tinha era de jogar elas pela janela. Mas eu fiz melhor que isso, fui troca-las, podia ser culpa do plástico, do tamanho, da cor, sei lá...havia de ter uma solução! Não teve mais volta, eu já tinha usado, as sapatilhas já eram minhas, não dava pra repassar assim, pra outro pé, elas já me pertenciam. Eu tinha 2 opções, ama-las ou queima-las, mas que aperto que dava no coração, imaginar elas derretendo seu plástico tão brilhante e tão sorrindo pra mim e tão dizendo: me calça, me calça! Tão reluzente e mágica por fora e tão desconfortável e fedorenta por dentro, como tantas outras coisas que eu já tinha visto na vida. Todas essas coisas são testes e eu não ia ser vencida por uma sapatilha...ou por um par delas...Eu já tinha ouvido falar que com o passar do tempo, ela se adaptaria ao meu pé, aí ela era tão linda e parecia valer tão a pena que eu resolvi tentar.

Foram pequenos apertos diários, alguns calos e outras cositas mais, até que meus pés se acostumaram...Pra poder desfrutar do melhor dela, eu tive que aprender a conviver com os danos, com a desagradável sensação de que ela não me servia, o engraçado é que o número era exatamente 37 e cada um deve calçar o número que lhe cabe. Talvez meus sapatinhos vermelhos, rentes ao chão, fossem exatamente o que eu precisava no momento, combinavam com a maioria das minhas roupas, com todas as ocasiões e eu não ia ignora-los porque me feriram algumas vezes. Quantas coisas já não me feriram algumas vezes? Eu me arrependo de não ter insistido em todas, como um par de sapatilhas, afinal, quem sou eu pra não poder ter um calinho e sara tão rápido, que nem vale a pena descartar. Nem sapatilha, nem gente é descartável. (só alguns copinhos)

Agora, pra não deixar a impressão de que as sapatilhas vermelhas só me fizeram mal e que eu sou a pessoa mais boazinha do mundo por aguenta-las por tanto tempo, eu quero salientar em letras maiúsculas que ostentam mais e como toda coisa maiúscula chama mais atenção: HOJE EM DIA ELAS CALÇAM LINDO. E o bom que como tenho os pés feios, eles passam despercebidos, bem cobertinhos e vermelhos. Por isso por experiência própria eu digo: sapatilha apertada é só uma questão de tempo!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Jogo do contente


É tão difícil vivenciar a teoria na prática, difícil e necessário. Você pode planejar seus atos, pode se fortificar pra possíveis situações difíceis, mas só vivenciando é que se sabe até onde se é capaz de suportar. E não há nada que não se possa suportar... Isso porque existe uma força maior que sabe exatamente quantos quilos cada ombro é capaz de carregar. Não significa que a trajetória seja fácil, mas que existem forças e de todas essas forças que vem do alto, do lado de fora a mais certa é a que vem de dentro. Todas as respostas, todas as forças estão guardadas, por dentro para potencializar a resistência, sempre que solicitada. E na maioria das vezes é preciso fazer silencio para ouvi-las, o barulho da dor é muito alto eu sei, mas é preciso silenciar. Equilibrar.
É mais cômodo se acovardar, é mais fácil ouvir o medo ao inves da verdade e a verdade é: tudo aqui é provisório. A mesma chuva que vem e lava as cores, também serve pra irrigar e fertilizar o terreno, pra que cores novas e mais fortes se espalhem. A felicidade não seria percebida como felicidade se não houvesse a tristeza, por isso nada é um estado constante. É preciso solidificar o edifício, pra que ele permaneça inabalável, durante os terremotos corriqueiros.
Minha me disse hoje que tudo sempre dá certo, porque mesmo que aos nossos olhos pareça errado, cosmicamente está tudo planejado para o bem. E quem sou pra duvidar da minha ? quem sou eu pra duvidar do bem? Eu vou acatar o meu destino, mas mostrando pra ele que eu sou mais forte do que ele pensa, porque quando a gente mostra pra dificuldade que não vai ser tão fácil assim como ela pensa, ela desiste de nos perseguir. E são com essas cores que eu vou pintar a minha vida, por hora cinza, verde musgo, mas prestes a receber um lindo tom de lilás.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Fim do livre acesso


Não importa o quanto você tente acertar, você sempre vai estar errado pra alguém. Não existe um senso comum no que diz respeito a justiça e é impossível corresponder a justiça individual de todo mundo que atravessa sua vida. Mas de todos os erros, não são as faltas que causam maiores danos, são os excessos. Quando você peca por baixar tanto a guarda, por dar tanto espaço, fazer tanto pelo outro, doar-se a ponto dessa doação parecer obrigação aos olhos de quem tem o costume de receber.
Pra mim é muito incômodo incomodar, eu prefiro mil vezes sofrer o dano, do que ser responsável por ele... E é triste viver assim comedida, tentando satisfazer aos anseios de cada um que se mostra meio importante. A consciência é um instrumento estranho, algumas parecem avessas à realidade, parecem nunca gritar, mesmo quando o erro é gritante. A minha deve ter muita inveja disso, já que ela não consegue ficar calada e busca até encontrar um motivo mínimo que possa ser causa de desagrados. Sofro de excesso de acessibilidade, em detrimento de mim mesma faço pelas pessoas, busco, mesmo em troca nada recebendo . Mas todo nada é nada e em algum momento precisa-se de alguma coisa.
Já tive mil lições de que (sem eufemismo) ser besta, é prejudicial pra ambas as partes. Talvez seja a hora de aprender a seguir o meu caminho sem dar carona à ninguém, afinal quem realmente importa estará me acompanhando. Uma hora o semáforo tem que ficar vermelho.